Autossabotagem: o predador interno

"O Barba Azul"A autossabotagem pode ser definida como um hábito ruim que a pessoa repete, repete, repete e repete e nem se dá conta que está repetindo. No entanto, quando toma consciência de que está fazendo algo que não gostaria de fazer, continua fazendo. E, assim, ad infinitum até que inicie um processo de autoanálise, busque ajuda e se comprometa, de verdade, em mudar. Pode-se dizer que a autossabotagem é um predador interno.

A autossabotagem é uma tendência – mais forte em algumas pessoas – de colocar limites e dificuldades no caminho para atingir os objetivos. Coisas que seriam muito simples, tornam-se muito difíceis e complicadas quando o auto boicote entra em cena. Por exemplo, você tem que estudar para uma prova muito importante. Mas, ao invés de focar nos estudos, conversa com alguém ao celular, resolve cozinhar algo para comer e quando se dá conta, já se passaram três horas e nem abriu o material de estudo.

Uma situação muito comum é de mulheres que após o nascimento dos filhos colocam inúmeras dificuldades para retornarem ao mercado de trabalho, sabotando suas carreiras. Sabemos que as dificuldades de conciliar trabalho e maternidade são grandes. No entanto, ao analisarmos mais a fundo a situação, percebemos que existe algum parente que poderia ficar com a criança, existe uma creche bem próximo à casa da pessoa e, até mesmo, a possibilidade de pagar para que alguém fique com esse bebê. Porém, a mulher continua dando desculpas e, quando percebe, a criança já está com cinco anos e ela ainda não voltou ao mercado.

Podemos ilustrar situações de autossabotagem nas mulheres com a leitura do famoso conto “O Barba Azul”, que é o predador interno. Se você não conhece, leia aqui.

Em “Mulheres que Correm com os Lobos”, Clarissa Pinkola Estés, explica que o Barba Azul representa o predador interno presente na psique feminina. Agora, vamos focar na imagem de um predador: é aquele que come os mais fracos, devora a carne dos mais inferiores na cadeia alimentar. Ele é interno e natural porque é inato, nasce com a gente está presente dentro da nossa mente.

Na verdade, este predador faz parte da psique feminina e da masculina, mas hoje vamos nos ater no aspecto do feminino, por ser mais visível na nossa sociedade e por este ser o foco do meu trabalho.

A ideia de sermos habitados por uma força destrutiva pode soar muito estranho em um primeiro momento. Afinal, qual a finalidade de termos em nós algo que vai contra o nosso crescimento, sendo que a nossa natureza é orientada para crescer e se desenvolver?

Nos próprios contos e histórias podemos ver a resposta: a mulher quando fica prisioneira ou refém de algum ser estranho e maquiavélico, reúne forças para combater e transformar essa energia destrutiva. E, então, amadurece e fica muito mais forte do que era no início da narrativa. Ou seja, esse embate é mais do que necessário para o amadurecimento da mulher.

É muito importante lembrar que o Barba Azul é um arquétipo e pode paralisar a pessoa por meio de pensamentos auto destrutivos como: “você não é boa o suficiente”, “você nunca vai alcançar isso”, “você não vai dar conta deste projeto”, entre outros.

A mulher vítima do predador interno passa a se sentir sem confiança e sem energia. Em sonhos, a figura deste aniquilador pode aparecer como um ladrão ou abusador (ou vários). De fato, o predador interno quando não conscientizado começa a roubar a energia psíquica que seria usada para seu desenvolvimento, aprisionando a pessoa em um ciclo de comportamentos auto destrutivos, relacionamentos que não são saudáveis e infelicidade.

Outra característica deste predador é o excesso de exigências e expectativas de perfeição – tanto para si consigo mesma, como para com os outros. Essa constante insatisfação pode provocar depressão, pânico e um excesso de controle.

A boa notícia é que tudo isso pode ser superado e detectado em sessões de terapia analítica. Nesse sentido, o trabalho terapêutico volta-se para identificar a origem dos pensamentos negativos e, também, retirar as projeções colocadas nos parceiros, anulando os superpoderes que ilusoriamente coloca neles.

Com força de vontade e coragem para olhar para os aspectos negativos da psique, é possível elaborar e superar todas essas dificuldades. O autocuidado é o primeiro passo para termos uma vida melhor e mais produtiva.

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