A alquimia e a psicologia analítica – II

"as fases da alquimia"

Como dito no texto anterior, os processos alquímicos passam por quatro fases que são: nigredo, albedo, citredo e rubedo.

A Operação Negra, ou simplesmente nigredo, seria a primeira Etapa da Opus, a arte de chegar ao Mercúrio dos Filósofos. Nesse estágio, a matéria é dissolvida e entra em putrefação. É o primeiro estágio da alquimia, o qual designavam a morte espiritual, onde a matéria “deixa de ser”. No processo terapêutico, essa fase seria o início da terapia onde o paciente deve enfrentar o seu lado sombrio.

Este processo pede o reconhecimento de invejas e ódios ocultos e pode provocar depressão, melancolia, introversão e desilusão. Para sair deste estágio, é necessário mergulhar profundamente para, então, conseguir subir e passar para a fase seguinte.

Em seguida, temos a fase albedo. Nesse estágio, a substância passa por um processo de purificação e dissipações até chegar a ser uma substância pura. Nesta fase, o paciente já consegue ter maior consciência e distanciamento de seu conflito interior. Ele consegue olhar de longe para as coisas, com uma visão mais panorâmica. A mente na fase albedo fica mais receptiva, imagética e auto reflexiva.

A fase seguinte é a citredo que, na alquimia, seria o estágio da conversão da prata em ouro, literalmente. Seria a fase do despertar da matéria e o processo encontra-se quase concluído, faltando chegar em sua excelência. Em terapia, esta é a etapa mais mental do processo. Nesta fase, a pessoa começa a intuir outras formas de vida e novas possibilidades.

E, por último, vem a quarta e última fase, a rubedo. Nela conclui-se a Opus, o culminar da obra ou casamento alquímico, a iluminação e obtenção da Pedra Filosofal. Nesta fase, o paciente torna-se mais confiante, otimista e alegre. O vermelho traduz a exaltação e excitação. É o momento em que acontece a integração da psique, em que a pessoa se compreende melhor e aprende a se amar do jeito que é.

Durante as fases citadas acima, sucedem-se as seguintes operações alquímicas: calcinatio, solutio, coagulatio, sublimatio, mortificatio, separatio, coniunctio.

Para melhor exemplificar a alquimia e sua correlação com os processos terapêuticos, Edward Edinger, em “Anatomia da Psique”, concentrou-se nas principais operações alquímicas. Segundo ele, descoberta a prima matéria, fazia-se necessário submetê-la a uma série de procedimentos químicos a fim de transformá-la na Pedra Filosofal.

"operações alquímicas"

“Praticamente todo o conjunto de imagens alquímicas pode ser organizado em torno dessas operações – o que não se aplica apenas a esse conjunto de imagens. Muitas imagens mitológicas, religiosas e folclóricas também giram em torno delas, já que vêm da mesma fonte: a psique humana.” (….) “São elas: calcinatio, solutio, coagulatio, sublimatio, mortificatio, separatio, coniunctio…” O autor utiliza os termos em latim para distinguir os processos psicológicos dos procedimentos químicos.

Calcinatio – processo que se dá pelo fogo. Como ocorre com a maioria das imagens alquímicas, a calcinatio deriva parcialmente de um procedimento químico. O processo químico da calcinação envolve intenso aquecimento de um sólido e destina-se a retirar a água e todos os demais elementos possíveis de volatilização. Resta um fino pó seco, cinza branca. Segundo Jung, o fogo simboliza a libido.

"fogo simboliza a libido"

Edinger apresenta sonhos de alguns pacientes para exemplificar como o conhecimento das fases alquímicas pode ser útil no processo terapêutico.  Abaixo um dos sonhos contados no livro:

“O reverendo X (um ministro bem conhecido que o paciente reverenciava) morrera. Seu corpo deveria ser cremado e havia dúvidas acerca de quem ficaria com o ouro que seria deixado depois que seu corpo ardesse. Vi ouro líquido, de cor bastante escura, mantido numa espécie de matéria negra, talvez cinzas negras… Meu primeiro pensamento a respeito do ouro foi negativo, um sentimento de repugnância, depois, veio-me a ideia de que o falecido deveria ter sido alguém muito especial e de que o ouro era uma espécie de essência sua ou a coisa de valor que ele deixara.”

Notamos que este sonho combina vários temas alquímicos: a calcinatio como cremação; a morte e o negrume da mortificatio; a extração da essência, separatio; e a produção do ouro, o alvo da Opus. Tanto no texto como no sonho, o rei morto ou figura do reverendo são objetos da calcinatio. Segundo Edinger, o valor de vida dominante, em torno do qual a pessoa se estruturou, está passando por uma reavaliação.

O fogo calcinatório também pode derivar da sexualidade. Veja outro sonho que Edinger apresenta no livro:

“Ele (o paciente) vê a mãe numa cesta de arame coberta por fragmentos de ardósia quente. O procedimento, ao que se supõe, é terapêutico, mas afirma-se que pode tornar-se diabólico caso os fragmentos de ardósia sejam aquecidos a tal ponto que o transformem em tortura.”

Neste sonho, a mãe representa a prima matéria que deve ser submetida à calcinatio. Trata-se do mundo de Eros, do princípio feminino, que requer purificação. O fogo da calcinatio é um fogo purgador, embranquecedor, e atua sobre a matéria negra, a nigredo, tornando-a branca.

Solutio – processo que se dá pelo elemento água – É a operação que transforma um sólido em estado líquido. O sólido desaparece no solvente, como se tivesse sido engolido. Solutio significa o retorno da matéria diferenciada ao seu estado indiferenciado original, à Prima Matéria. Se a água lembra o útero, a solutio é uma espécie de retorno a ele, como um renascimento. A solutio provoca tanto o desaparecimento de uma forma como, também, o surgimento de uma nova forma, regenerada. Psicologicamente, é o sentido de transformação da Alma.

"solutio_água"

O banho, o aguaceiro, o chuvisco, a natação, a imersão na água, entre outros, são equivalentes simbólicos da solutio que costumam aparecer em sonhos. Todas essas imagens relacionam-se com o símbolo do batismo, que significa uma purificadora e rejuvenescedora imersão em uma energia e em um ponto de vista que transcende o ego, uma verdadeira sequência de morte e renascimento.

A mitologia de Vênus tem importante relação com a água., uma vez que a deusa nasceu do mar. Seus perigosos poderes de solutio têm como representação sereias ou ninfas aquáticas que atraem os homens, levando-os à morte por afogamento.

Um exemplo desse tema ocorreu no sonho de um jovem que pensava em deixar esposa e filhos pequenos para desposar uma mulher sedutora. Edward Edinger conta o seguinte sonho deste rapaz:

“Estou numa passagem inferior pela qual as pessoas têm acesso à praia. Ali estão à venda as guloseimas que se costuma vender em locais de lazer: enormes pirulitos, pipoca, roscas com mais de 30 centímetros de comprimento, e outros doces. Dois dos meus filhos estão comigo (os mais novos). Uma bela mulher me chama para o mar e eu deixo as crianças numa barraca comendo fatias de torta. O sonho termina quando me encontro a meio caminho entre o mar e a barraca.”

Os sonhos com inundações referem-se à solutio. Representam uma ativação do inconsciente que ameaça dissolver a estrutura estabelecida do ego e reduzi-lo à prima matéria. As grandes transições da vida costumam ser experiência de solutio. Edward Edinger apresenta o sonho de uma mulher, mãe de três filhos, que passava por um segundo divórcio, para exemplificar a afirmação:

“Olho de uma casa de praia e vejo uma grande onda. Chamo as crianças para que entrem. Mary vem devagar, mas chega a tempo e eu fecho as portas. Então, a onda cai sobre nós. Penetra por todas as rachaduras e nos cerca. Estou preocupada com Bob, meu filho, que está na praia e fico imaginando se conseguiu escapar. Sei que todos os banhistas estão mortos. Não há como escapar e digo a mim mesma: “Então, é assim.” Não sinto pânico real. Como é impossível escapar, simplesmente, é assim que são as coisas. Mas, então, a água retrocede…”

Coagulatio – processo que se dá pelo elemento terra – Refere-se à experiência no laboratório onde o resfriamento transforma um líquido em sólido. A coagulatio é o processo que transforma as coisas em terra. Terra é um dos sinônimos de coagulatio. “Pesada e permanente, tem forma e posição fixa. Não desaparece no ar por meio da volatilização, nem se adapta facilmente à forma de qualquer recipiente, ao contrário da água.

 

"coagulatio"

Podemos observar a coagulatio no seguinte sonho descrito por Edinger:

“É madrugada, a luz do sol nascente começa a aparecer. Estou mergulhado até a cintura numa substância formada pela mistura de lama negra, limo e excrementos. Não há ninguém por perto e a escuridão se estende até o horizonte. É como o começo do mundo, o primeiro dia da criação. Começo a agitar as pernas, batendo a lama negra com enorme e persistente esforço. Continuo a fazê-lo horas a fio e, aos poucos, o pântano primevo passa a endurecer e a tornar-se firme. Percebo que o sol se eleva no horizonte e que seu calor está secando a água e propiciando terra sólida. Antecipo que terei condições de pisar em um terreno firme.”

“Psicologicamente, tornar-se terra significa concretizar-se numa forma localizada particular. (…) Sob o ponto de vista psicológico, a coagulatio significa que o Espírito fugidio de Mercúrio é o espírito autônomo da psique arquetípica. Significa ligar o ego com o Si-Mesmo, realizar a individuação”, explica o autor.

Sublimatio – processo que se dá pelo elemento ar – O termo vem do latim sublimis, que significa “elevado”. Transforma os materiais por intermédio da elevação e volatilização. O sólido, ao ser aquecido, passa para o estado gasoso e sobe até a borda do vaso alquímico, onde volta a assumir o estado sólido na região superior, mais fria.

A destilação é um processo em que o líquido se torna vapor ao ser aquecido e volta a condensar-se. A terra se transforma em ar; um corpo fixo se volatiliza; aquilo que é inferior torna-se algo superior. Em termos psicológicos é a fase descrita como purificação. Quando são misturados num estado de contaminação inconsciente, a matéria e o espírito devem ser purificados pela separação.

"sublimatio"

Todas as imagens referentes ao movimento para cima, como escadas, degraus, elevadores, alpinismo, montanhas, voar e, assim por diante, pertencem ao simbolismo da sublimatio, aplicando-se todas as conotações psicológicas associadas a estar em cima ao invés de estar embaixo. Segundo Edinger, a sublimatio é uma ascensão que nos eleva acima do emaranhado confinador da existência terrestre, imediata, e de suas particularidades concretas, pessoais.

Quanto mais alto nos elevamos, tanto maior e mais ampla nossa perspectiva, mas, ao mesmo tempo, tanto mais distantes ficamos da vida real e tanto menos nossa capacidade de agir sobre aquilo que percebemos. E, segundo Edward Edinger, é aí que reside o perigo, pois podemos nos tornar expectadores magníficos, mas impotentes.

Ficar acima das coisas, ver a si mesmo com objetividade é chamado em psicologia de “dissociar” e nisso reside o perigo da sublimatio. Quando levado aos extremos, pode vir a ser algo patológico, isso porque a dissociação é fonte de consciência do ego, mas também causa de doença mental.

O psicoterapeuta junguiano ajuda o paciente a lidar com esse estado de sublimatio, trabalhando por meio de sonhos e exercícios de imaginação ativa para promover a consciência do porquê da fixação nesse estado psíquico a fim de esvaziar complexos e diminuir essas forças sobre as ações do paciente.

Leia mais sobre o tema em: A psicologia da alquimia de Jung.

Para que este post não fique extremamente longo e cansativo, comentarei as fases seguintes – mortificatio, separatio, coniunctio – em um próximo texto.

Até breve!

 

Imagem 1 – As quatro cores, os quatro estágios do processo alquímico Ilustração original de Michael Maier, Atalanta fugiens, Oppenheim, 1618

Imagem 2 – Os quatro elementos – gravura da Renascença

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