Mulher boazinha

business-womanQuem falou que a mulher tem de ser boazinha, condescendente e sempre estar de acordo com o que lhe dizem? Aliás, coloco esta questão em relação à questão de gêneros. Quem disse que a mulher tem que aceitar quietinha tudo o que o homem lhe diz? É impressionante como existem homens que ainda vivem em um esquema em que só o que eles pensam e dizem é válido. Não aceitam uma opinião diferente e, ainda por cima, acham que podem desvalorizar suas mulheres com comentários maldosos e brincadeirinhas perniciosas. Tudo para desestabilizar sua mulher, amante, companheira.
Por trás desse tipo de comportamento só pode existir a insegurança e baixa autoestima do homem. Não é possível que um homem que seja seguro de si e de suas potencialidades fique a toda hora cutucando sua mulher e criando climas para que surjam discussões. E, para completar esse quadro, esse homem ainda acha ruim quando a mulher retruca, reclama e se coloca numa posição de não-aceitação desse sarcasmo.
Muitos homens gostam que a mulher seja independente, dirijam seus carros quando eles bebem demais, dividam a conta do restaurante. Não estou falando desses homens. Estou falando dos machistas, daqueles que não gostam de mulher independente e autônoma.
Não sou feminista e não gosto de levantar bandeiras. Mas, tem situações que são inadmissíveis e, nesses casos, é muito bom saber que existiram mulheres que levantaram bandeiras em prol da igualdade de direitos da mulher e de seus interesses, à sua autonomia e integridade.
O homem, com a desculpa de que está apenas brincando ou fazendo uma piadinha pode, na verdade, estar rebaixando sua companheira ou desfazendo de sua colega de trabalho. E, situações como essa, repetidas várias e várias vezes, são um prato cheio para acabar com autoestima de qualquer mulher. Comportamentos machistas, no fundo, têm mesmo essa intenção: diminuir a mulher para que ele, homem, se sinta superior.
É bom lembrar que o machismo é o início de todo o tipo de agressão contra as mulheres, desde a mais “inocente cantada” na rua, até casos mais graves de assédio moral e sexual e, mais grave ainda, casos em que o marido, amante ou namorado acabam assassinando a companheira por motivos torpes.
Ainda é muito difícil para a maioria das mulheres perceber o quanto a atitude machista, enraizada em nossa sociedade, lhe rouba oportunidades de emprego, de crescimento profissional e possibilidades de crescimento como pessoa. É difícil compreender que uma notícia de assassinato passional ou de estupro seguido de morte está intimamente ligada aos assobios e provocações que muitos homens fazem para as mulheres nas ruas.
A atitude do homem de chamar de “gostosa” uma desconhecida está dizendo que ele, em sua posição masculina, tem o direito de julgar, avaliar e controlar a sexualidade do corpo feminino. Então, se ele pode fazer isso com uma desconhecida, vamos imaginar o que ele, infelizmente, acha que pode fazer com sua companheira dentro de casa. Cantar uma mulher na rua de forma desrespeitosa é uma forma que o homem tem de dizer que tem poder sobre ela.
Para além dessa atitude do homem mostrar poder em relação às mulheres, está em como a construção de gêneros é feita em nossa sociedade, em como homens e mulheres são criados. Mulheres são criadas para serem sempre meninas dóceis, meigas, bonitas e simpáticas. Os meninos são criados para serem fortes, lutarem com suas armas de brinquedo e não chorar. Desde muito cedo estamos envoltos em construções de gênero. E, assim, reproduzimos e mantemos as desigualdades e hierarquias em todo o decorrer de nossa vida. O machismo é aprendido desde cedo tanto pelo menino, como pela menina e aceito como normal. Em regiões periféricas e mais pobres, essa realidade é aumentada e piorada até a enésima potência.
Acabar com essa forma de ver e estar no mundo é deixar de achar que a violência dos homens para com as mulheres, em todas as suas nuances, seja normal. É necessário ir além do lugar comum de rotular o homem como agressor e a mulher como vítima e questionar até que ponto estimulamos o comportamento machista nos homens. É preciso pensar em como, nós mulheres, reproduzimos o machismo em nossas vidas, quer criticando e competindo com outras mulheres para levarmos vantagens na hora de seduzir os homens; quer chamando outras mulheres por nomes pejorativos quando essas se vestem com saias de comprimento menor do que a sociedade apregoa usar.
A competição feminina empodera ainda mais os homens e perpetua o machismo na sociedade, assim como, invejar o sucesso de uma colega ou amiga concorre para o mesmo fim. Quando Freud citava a “inveja do pênis” no começo do século passado, estava se referindo ao poder que os homens tinham na sociedade da época. Com a revolução feminista, a mulher tornou-se mais livre do poderio masculino e, então, a inveja feminina em relação aos homens deslocou-se para o poder legitimado que outras mulheres tenham.
Uma mulher que tenha seu poder legitimado no trabalho, nas relações interpessoais e consigo mesma atrai olhares invejosos de outras mulheres. Mas, é preciso lembrar que o machismo além de enfraquecer as mulheres, vende a ideia que as mulheres devem ser inimigas. Isso é mais uma forma de manter a dominação do homem sobre a mulher.
A conscientização das desigualdades de gênero não é algo simples. Se fosse, já a teríamos combatido há muito tempo. É necessário desconstruir o machismo e o modo como homem e mulher são inseridos em nossa sociedade. Romper o ciclo é um desafio difícil, mas necessário.

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