Mito da origem das estações: Deméter e Perséfone

 

Como comentei anteriormente, a partir deste post apresentarei os mitos das deusas gregas e, em seguida, uma breve análise de como determinadas características desta deusa podem afetar positivamente ou negativamente quem está sob esta influência.

Para contar os mitos das deusas, optei pelos famosos mitólogos Joseph Campbell e  Junito Brandão. Como os mitos são abordados por diferentes perspectivas de acordo com determinado autor, optei por autores que são reconhecidos pelo estudo aprofundado do tema. É possível acessar o livro “O Poder do Mito”, de Campbell, em arquivo PDF. No post de hoje, falarei sobre o mito de Deméter e Perséfone, que se interligam.

Vamos ao mito!

Deméter, deusa do cereal, presidia abundantes colheitas. Os romanos a conheciam como Ceres. Era retratada como uma bonita mulher de cabelo dourado e vestida com uma roupa azul. Deméter era venerada como uma deusa mãe, especialmente como mãe do cereal e mãe da jovem Perséfone, a romana Prosérpina.

Deméter era a segunda filha de Reia e Crono, e foi a segunda a ser envolvida por ele. Ela foi a quarta esposa de Zeus, que também era seu irmão. Precedeu Hera, que era a número sete e a última. Dessa união veio a única filha de Zeus e Deméter, Coré, depois chamada Perséfone, com quem Deméter está ligada no mito e no culto.

O mito de Deméter concentra-se na reação desta ao rapto da filha pelo tio, Hades, deus do mundo avernal, dos infernos. Esse mito tornou-se a base dos Mistérios Eleusis, os mais sagrados e importantes rituais religiosos da Grécia Antiga por mais de 200 anos. A veneração à deusa chegou ao fim do século V d.C, com a destruição do santuário de Eleusis pelos invasores. Por meio desses mistérios, as pessoas encontravam uma razão para viver com alegria e morrer sem medo da morte.

O rapto de Perséfone

Um dia, quando Perséfone estava colhendo flores nos prados com suas companheiras, foi atraída por um narciso supreendentemente bonito. Ao estender a mão para pegá-lo, o solo abriu-se aos seus pés. Das profundezas da terra, emergiu Hades em sua carruagem de ouro puxada por cavalos pretos. Apoderou-se dela e sumiu da mesma maneira como surgiu. Perséfone gritou e pediu a ajuda a Zeus. No entanto, não veio nenhum auxílio.

Deméter entrou em desespero procurando por todos os cantos a sua filha, sem encontrá-la. Sua tristeza repercutiu sobre toda a terra, na forma de uma grande seca e fome. Nada mais brotava e a humanidade estava à beira da morte, devido à fome.

Deméter ouviu os ecos dos gritos da filha e foi correndo para encontrá-la. Procurou por sua filha desesperadamente por nove dias e nove noites, por terra e por mar. Ao raiar do décimo dia, Deméter encontrou Hécate, deusa da Lua escura e das Encruzilhadas, que lhe sugeriu que poderiam ir juntas a Hélio, deus Sol, divindade da natureza que compartilha esse título com Apolo.

Hélio esclareceu a Deméter o ocorrido e, então, tomada pela dor e vestida de preto, Deméter deixa o Olimpo e se dirige para as cidades dos homens. Caminha disfarçada como velha mortal para não ser reconhecida até que chega ao palácio do Rei Celeu, em Eleusis. A deusa cansada, senta-se para descansar próxima a um poço.

As filhas do rei, ao notarem sua presença, quiseram saber de onde ela era e porque estava ali. A deusa, passando por uma simples mortal, conta que fugiu de um navio de piratas e buscava ajuda e trabalho. No palácio foi recebida com imensa hospitalidade pelo rei e sua mulher, Metanira, e foi convidada a ficar ali como ama de leite de Demofonte, o príncipe recém-nascido.

Sem o conhecimento dos pais ou dos deuses, Deméter, afeiçoada à criança, resolve lhe conceder a imortalidade. Durante todas as noites, ela o mantém no fogo a fim de queimar a sua mortalidade. Um dia, Metanira entra por acaso no quarto antes que o ritual acabe e quebra o feitiço, provocando a ira da deusa, que acabou se revelando à mãe da criança.

A deusa ficou tão furiosa que, em vez de voltar ao Olimpo, recolheu-se em seu templo, em Eleusis, impedindo que as árvores dessem frutos e a grama crescesse.

Zeus não se atreveu a visitar Deméter. Mas, enviou deuses com mensagens para que ela retornasse ao Olimpo e retomasse sua função de deusa dos cereais. Ela manteve-se irredutível e avisou que não retornaria ao Olimpo e a terra continuaria estéril enquanto sua filha não fosse devolvida.

Então, Zeus enviou Hermes, deus alquímico que favorece as transformações, com uma mensagem para Hades, intimidando-o a devolver Coré. O acordo era que Deméter poderia ter sua filha de volta desde que não tivesse provado da comida dos mortos.

Enquanto estava no mundo Avernal, Coré, agora Perséfone – a esposa de Hades – somente chorava e se negara a comer. Quando soube que iria retornar para a mãe parou de chorar e Hermes a ajudou a subir na carruagem para voltarem.

No entanto, quando estava para partir, Hades ofereceu-lhe uma romã, a fruta da fertilidade, para Coré-Perséfone. Ao comer a fruta juntos, criaram laços que a fixou ao mundo inferior. A flor-Coré transforma-se em fruta-Perséfone.

Ao saber que Perséfone havia comido a romã, Deméter e Hades chegaram finalmente a um acordo: Coré passaria três meses em companhia de Hades, como Rainha do mundo dos mortos, sob o nome Perséfone. Os nove meses restantes, passaria com Deméter.

Após se reunirem, Deméter devolveu a fertilidade e o crescimento à terra. Proporcionou, então, os Mistérios Eleusis – que eram cerimônias impressionantes que os iniciados eram proibidos de revelar.

Nos meses em que Perséfone está ao lado da mãe, a terra se alegra e enche-se de flores e amor, mas quando está chegando a hora de Perséfone voltar para o Hades, Deméter vai se entristecendo e, em consequência, a terra vai se modificando e ficando menos fértil. Nos meses em que Perséfone se recolhe ao Hades, a terra fica totalmente estéril e fria e Deméter está triste. Mas, com o retorno de Perséfone, tudo renasce e a terra volta a ser fértil. É o renascimento da primavera.

Deusa Perséfone

A deusa Perséfone, que os romanos chamavam de Prosérpina ou Coré, é melhor conhecida por meio do “Hino a Deméter”, de Homero, que descreve seu rapto por Hades. Foi adorada de dois modos: como Coré, que significa garota jovem, e como Rainha do Inferno.

Coré era uma deusa jovem, esbelta, bonita e associada a símbolos da fertilidade – romã, milho, e, também com narciso, a flor que a atraiu. Como Rainha do Inferno, Perséfone é uma deusa experiente que reina sobre os mortos, guia os vivos que visitam o mundo das trevas e pede para si o que deseja.

Embora Perséfone não seja um dos doze deuses olímpicos, foi a figura central dos Mistérios Eleusis – que por dois mil anos antes do cristianismo foi a principal religião dos gregos. Nos Mistérios Eleusis, os gregos experenciavam a volta ou renovação da vida depois da morte por meio da volta anual de Perséfone do Inferno. Perséfone é a filha única de Zeus e Deméter. A mitologia grega é silenciosa quanto às circunstâncias de sua concepção.

Após o rapto de Perséfone e reencontro com sua mãe, Deméter – contado em detalhes logo acima – Perséfone tornou-se Rainha do Inferno. Todas as vezes que herois e heroínas da mitologia grega desciam para o reino inferior, Perséfone lá estava para recebê-los e ser sua guia. Não estava ausente para ninguém. Nunca havia um sinal na porta dizendo que ela fora para a casa da mãe, embora o mito Perséfone-Deméter diga que ela fazia isso dois terços do ano. 

Características da Deméter Contemporânea

Da mesma forma que o mito, mulheres tipo Deméter são mães, no sentido mais amplo da palavra. Possuem disposição para engravidar e para a maternagem e sentem prazer em estar grávidas e, posteriormente, cuidando dos filhos pequenos. A necessidade de cuidar vai para além das pessoas do seu convívio, sendo vista como a mãezona do grupo de amigos ou de algum amigo em particular.
As mulheres Deméter têm a tendência de tornarem-se mães de seus companheiros e maridos, transformando-os em filhos para poderem idealizá-los como herois. A capacidade de nutrir não se restringe apenas às necessidades físicas, mas também agasalhar, acalentar e acolher.

As mulheres Deméter não têm muito interessante pelos relacionamentos intelectuais ou pela sexualidade e gostam que o companheiro seja provedor e confiável.

Mulheres com esta energia forte estão tão envolvidas com a maternidade que nem se importam em arranjar tempo para elas mesmas. Sentem-se plenamente realizadas sendo mães. Onde houver alguém precisando maternalmente delas, elas estarão lá, alimentando, confortando e consolando.

No entanto, o mundo atual exige que as mulheres também saiam para trabalhar para ajudar nas despesas de casa ou, se é mãe-solteira, para o próprio sustento e de seu filho. Então, as mulheres Deméter sofrem profundamente em ter que deixar os filhos aos cuidados de alguém ou instituições. Isso pode gerar uma imensa culpa que deve ser trabalhada no setting terapêutico.

As mulheres que vivenciam o arquétipo de Deméter ressentem-se da falta de poder – que era pleno na época em que se contemplava os Mistérios Eleusis. Elas sofrem com a transformação da sociedade que exige que ela volte logo ao trabalho assim que o filho nasce. Elas querem simplesmente criar e ver seus filhos crescerem e se veem obrigadas a retornar ao trabalho e atuar ao lado dos homens ou, até mesmo, aprender a ser independentes deles, tendo que ser pai e mãe de seus filhos.

Geralmente, são amantes da harmonia e costumam reprimir tudo o que possa gerar conflito nos relacionamentos. Então, têm dificuldade em lidar com os fatos ou encará-los da maneira que são. Como Hera, Deméter é uma deusa vulnerável, que pode ser vitimizada. Sua receptividade e afabilidade podem ser interpretadas erroneamente como um convite para serem abordadas sexualmente ou que estão disponíveis.

No aspecto negativo, as mulheres Deméter podem encarnar a mãe devoradora, controladora dos filhos, que impedem o desenvolvimento e crescimento emocional dos filhos por excesso de proteção e zelo. A proteção excessiva – por meio de chantagens emocionais e cobranças – pode sufocar os filhos, dificultando o amadurecimento.

Muitas vezes, a mulher não tem nem consciência do quanto controla os filhos e as pessoas ao redor. Portanto, o trabalho terapêutico deve ser guiado no sentido de mostrar a essa mãe que o amor deve ter como pano de fundo o equilíbrio e a alegria e não o controle e a superproteção. E ajudar a trazer à consciência que esses excessos são nocivos.

Características da Perséfone Contemporânea

Como vimos no mito, Perséfone tem dois aspectos: a jovem Coré e a Rainha do Mundo Avernal. De garota inocente e despreocupada, ela tornou-se a Rainha do Inferno ao lado de seu marido, Hades, o deus da morte. Psiquicamente, essa dualidade está presente nas mulheres como padrões arquetípicos, podendo ir para um lado ou para o outro; ou, mantendo os dois aspectos presentes na psique – o que é extremamente saudável.

Como a deusa, a mulher tipo Perséfone pode evoluir da jovem Coré para a Rainha do Mundo Avernal. No entanto, é comum na clínica observarmos mulheres que ficaram estacionadas em uma fase. Ao contrário de Hera e Deméter, que representam fortes instintos aos quais a mulher deve resistir para se desenvolver, Perséfone influencia a mulher a ser passiva e complacente. Dessa maneira, ela é facilmente dominada pelos outros. 

Quando a mulher Perséfone não consegue ultrapassar a fase do rapto – que na vida real pode ser causada por diversos motivos, como a perda traumática de alguma coisa como, por exemplo, o emprego, o casamento ou, até mesmo, a morte de algum familiar – a mulher pode ficar presa na Coré triste e suscetível.

Se esta depressão não for levada à sério pode até causar a morte da pessoa, pois a mulher tipo Perséfone tem acesso mais fácil ao mundo dos espíritos – pois, geralmente é médium, sabendo disso ou não, e tem enorme intuição. Se não for ajudada a sair dessa situação, pode entrar em psicose, ficando no mundo Avernal para sempre.

No sentido de auxiliar pacientes que têm o arquétipo de Coré-Perséfone constelado, o terapeuta deve conduzi-la a lutar contra a passividade e tomar as rédeas da vida em suas mãos. Também é necessário trabalhar a dificuldade em decidir as coisas – algo que a Coré tem enorme resistência, pois ao escolher uma opção, ela elimina a outra possibilidade e isso causa muita angústia para as mulheres-Coré.

Além disso, é interessante mostrar à paciente que o contato com o mundo Avernal pode ser feito por meio de estudos esotéricos e místicos. O interesse por formas alternativas de cura, Tarot e Astrologia também são meios que possibilitam adentrar no mundo de Perséfone.

Se quiser entender mais como os arquétipos podem estar afetando sua vida, entre em contato. 

Sessões terapêuticas presencias e via skype:

Contato: (11) 99915-6533

E-mail: juliana.parlato@gmail.com

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