A descoberta dos complexos

 

Após concluir o curso de medicina, em 1900, Jung deixou a cidade da Basileia, na Suiça, para ocupar o cargo de segundo assistente no hospital Burgholzli, de Zurique – sob a direção de Eugen Bleuler, sem dúvida um dos maiores psiquiatras de todos os tempos. A carreira de Jung neste hospital foi das mais brilhantes. Em 1904, Jung montou um laboratório experimental onde implementou o Teste de Associação de Palavras, por meio do qual Jung comprovou a existência dos complexos.

Este teste consistia em ler uma lista de palavras, uma de cada vez, enquanto a outra pessoa deveria responder com a primeira palavra que lhe vier à mente. Por meio deste teste, Jung observou que a pessoa, por vezes, levava muito tempo para responder a determinadas palavras. E, quando inquirida o porquê desta demora em responder, muitas vezes não sabia explicar.

Jung supôs que a demora fosse provocada por alguma emoção inconsciente que inibia a resposta. Explorando mais a fundo, Jung percebeu também que outras palavras relacionadas com a que provocara a demora também provocavam demoradas reações.

Raciocinou, então, que deveriam existir grupos de sentimentos, pensamentos e lembranças – ou seja, os complexos – no inconsciente. Qualquer palavra que atingisse o complexo provocava uma resposta retardada. Um estudo posterior de tais complexos demonstrou constituírem como que pequenas personalidades separadas na personalidade total.

O complexo é uma reunião de imagens conglomeradas em torno de um núcleo derivado de um ou mais arquétipos, carregados de afetividade, possuindo energia própria. Complexos são núcleos afetivos, “psiques parciais”, constituindo um meio de acesso ao inconsciente e incompatível com as disposições ou atitude habitual da consciência.

Esta imagem é dotada de poderosa coerência interior e tem sua totalidade própria e goza de um grau relativamente elevado de autonomia. A origem mais frequente dos complexos são os conflitos, mas também os choques e traumas emocionais. Sua expressão se dá na consciência por meio de memórias, imagens, fantasias e pensamentos dolorosos, sempre vinculados a um arquétipo.

Portanto, os complexos têm um núcleo dual: imagem arquetípica e produtos de experiências pessoais, como traumas, interações familiares, condicionamentos culturais, entre outros. Esta imagem está sujeita ao controle das disposições da consciência até certo limite. E, por isso, comporta-se, na esfera do consciente como um corpo estranho, animado de vida própria.

Nós não temos complexos, os complexos é que nos têm, pois se comportam como “seres independentes” e gozam de elevado grau de autonomia, quer a pessoa esteja ou não consciente deles. Com algum esforço de vontade, pode-se, em geral, reprimir o complexo, mas é impossível negar sua existência e, na primeira ocasião favorável, ele volta à tona com toda a sua força original.” – “A natureza da Psique” – C.G. Jung – O.C. 8/2 – veja PDF.

Do ponto de vista do ego, possuímos as seguintes possibilidades de comportamento diante de um complexo: total inconsciência de sua existência; identificação com o complexo; projeção; e, a confrontação. Somente a confrontação pode contribuir de forma fecunda para o indivíduo e para a dissolução do complexo.

Pode-se dizer que o trauma/afeto cria uma imagem na memória, emocionalmente carregada, e que se associa à imagem arquetípica. Juntas, as imagens congelam uma estrutura mais ou menos permanente e, ao redor do núcleo, reúnem-se associações decorrentes de outras experiências semelhantes e formam uma verdadeira rede.

A emoção, portanto, é o que une os vários elementos do complexo e são capazes de irromper, súbita e espontaneamente, na consciência, e de se apossar das funções do ego em graus que variam do inconsequente ao psicótico.

As manifestações dos complexos podem acontecer em lapsos de linguagem; esquecimentos; alterações de humor; e, nas possessões – quando uma emoção domina completamente a pessoa.

Portanto, os complexos são autônomos, possuem força propulsora própria e podem atuar de modo intenso no controle de nossos pensamentos e comportamentos. Foi graças a Jung que a palavra complexo passou a fazer parte do nosso vocabulário. Um forte complexo é facilmente percebido por outras pessoas. Embora, a própria pessoa não o perceba.

A maioria dos complexos observados por Jung provinha de seus pacientes e ele compreendeu que os complexos tinham a ver de modo acentuado com a condição neurótica deles. Portanto, um dos objetivos da terapia analítica é eliminar os complexos libertando a pessoa desta tirania.

Jung descobriu, também, que os complexos também podem ser forças impulsionadoras e de inspiração. Um artista obcecado pela beleza, por exemplo, só se contentará com a realização de uma obra-prima. Este artista produzirá muitas obras de arte, aprimorando a técnica e aprofundando a consciência para produzir algo de sublime beleza.

Van Gogh, por exemplo, era como que um homem possuído e sacrificou tudo, inclusive a saúde e, até a vida, à pintura. Esta luta pela perfeição deve ser atribuída a um forte complexo. Um complexo fraco limitaria o indivíduo à produção de obras medíocres ou inferiores; ou mesmo nada.

Para ler mais sobre psicologia analítica, acesse o link.

Veja trecho do filme Jornada da Alma em que Jung aplica o teste de associação de palavras em uma das pacientes do Hospital Burgholzli.

Referências Bibliográficas:

  • Jung Vida e Obra – Nise da Silveira
  • Considerações gerais sobre a teoria dos complexos – C.G.Jung O.C Vol. 8/2
  • Introdução à Psicologia de C.G. Jung – Wolfgang Roth
  • Jung – Mapa da Alma – Uma Introdução – Murrey Stein.
  • Psicologia do Inconsciente – C.G. Jung O.C. vol. 7/1

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